Bolsonaro vira peão de Lira no duelo com Renan

Um dos menores Estados brasileiros, com apenas 2,2 milhões de eleitores (6,5% do total), Alagoas voltou a moldar a disputa política nacional.

O duelo entre o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o senador Renan Calheiros transformou Jair Bolsonaro em peão num embate alagoano.

Ontem, o presidente esteve em Maceió. Manteve a rotina familiar de insultos ao relator da CPI da Pandemia, escolhido como adversário do momento.

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O deputado Lira e o senador Renan lutam pelo controle eleitoral do Estado mas, por enquanto, se mantêm no limite da civilidade. Conversaram, dias atrás, num jantar em Brasília. Foram dormir sem acordo.

Lira abriu sua campanha para o governo do Estado na companhia de Bolsonaro e do senador Fernando Collor, ex-governador e ex-presidente.

Filho de um ex-senador, Benedito, hoje prefeito de Barra de São Miguel, aos 51 anos Arthur Cesar Pereira de Lira vive seu momento de esplendor na política.

Na última primavera derrotou dois Renan (pai e filho, atual governador) na eleição para prefeito dos principais colégios eleitorais alagoanos. Saiu das urnas fortalecido, mas enfrenta um adversário mais novo e difícil: o governador Renan Filho, 41 anos, conseguiu se impor no xadrez estadual.

Pela primeira vez, um governo de Alagoas paga dívidas e funcionalismo em dia e opera com sólido caixa (cerca de R$ 5 bilhões), decorrente da venda de empresas de energia e de saneamento.

Renan, o filho governador, planeja disputar a única vaga ao Senado disponível no ano que vem — hoje ocupada por Collor, candidato à reeleição. A indecisão sobre escolha do sucessor ao governo estadual já custou aos Calheiros o vice-governador Luciano Barbosa. Ele migrou para a aliança com Lira e, em novembro, se elegeu prefeito de Arapiraca, segundo maior colégio eleitoral alagoano.

Renan, o pai, tem 65 anos e mais cinco de mandato no Senado. Faz política sem fígado, ao contrário de Bolsonaro. Emergiu das derrotas na presidência do Senado, em 2019, e na própria base estadual, ano passado, para uma tribuna nacional, a de relator da CPI da Covid. Reluz no plenário da comissão como expoente da oposição ao governo Bolsonaro.

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Lira venceu em Alagoas e, três meses depois, se elegeu presidente da Câmara. Legitimou sua liderança no agrupamento parlamentar conhecido como Centrão.

Na sequência, comandou a formalização de uma aliança com Bolsonaro em condições invejáveis, por exemplo, para o seu principal orientador na vida legislativa, o ex-deputado Eduardo Cunha, que está completando duas semanas de liberdade, sem tornozeleira eletrônica, depois de apeado da presidência da Câmara, cassado e condenado a 53 anos de prisão.

A relação de Lira com Bolsonaro tem ambiguidades que só ambos conhecem, mas o país paga a conta.

Candidato à reeleição, o presidente deve ao deputado o descarte de mais de uma centena de pedidos de impeachment pela responsabilidade no descontrole da pandemia.

Essa parceria levou a uma confusa transferência do governo para líderes do Centrão do poder de mando no Orçamento. Os resultados se espraiam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Ministros passaram a frequentar o Congresso de pires na mão, antes de ir ao Ministério da Economia.

A bagunça orçamentária deixou a Saúde, em plena pandemia, com menos dinheiro para investir do que o Ministério do Desenvolvimento Regional, onde Bolsonaro avalizou a criação de uma reserva de R$ 3 bilhões para financiar projetos escolhidos por alguns líderes do Centrão. São estrelas num calendário de inaugurações de obras federais até à temporada eleitoral do ano que vem.

Lira, por exemplo, obteve uma cota de R$ 144 milhões. É quase o triplo do volume de dinheiro legado ao IBGE para financiar o Censo de 212 milhões de pessoas — obrigação decenal prevista na Constituição.

Não vai ter Censo neste ano porque o instituto precisava de R$ 2 bilhões mas, depois dos cortes feitos no Congresso, sua verba ficou de tamanho equivalente ao gasto do governo em 2020 nas compras de biscoitos para o lanche nos ministérios (R$ 52 milhões).

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Ontem, na abertura da campanha de Lira ao governo de Alagoas, Bolsonaro deu à aliança com Lira e o Centrão uma inédita dimensão institucional, desenhando um acordo de personalidades que diluem identidades republicanas e mandamentos constitucionais: “Você tem sido excepcional naquilo que o Executivo lhe pede. E digo mais: Executivo e Legislativo não são dois poderes, é um só, porque um depende do outro, um nasceu para o outro. Graças a Deus, o Brasil hoje tem Arthur Lira na presidência daquela Casa.”

Lira retribuiu, mirando em Calheiros: “Governar não é produzir manchetes e buscar a popularidade efêmera e volátil da opinião pública. Governar não é perseguir, não é surfar na onda, não é buscar a zona de conforto dos holofotes fáceis.”

Pela biografia dos líderes do Centrão nos governos pós-ditadura, essa aliança será eterna enquanto durar. E nesse caso, esclarecem integrantes do bloco de Lira, a noção de tempo depende da soma de dois fatores: viabilidade eleitoral do presidente-candidato à reeleição e disponibilidade orçamentária na temporada pré-eleitoral de 2022. Ou seja, enquanto houver perspectiva de poder e dinheiro para obras, tudo bem. Caso contrário, os aliados de hoje se comprometem a comparecer ao velório e chorar em 2022 — sem obrigação de suicídio.

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Fontes Retirada do Site Veja Abril link da Matéria aqui….

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